Mães que não reconhecem suas crias

 

MÃES QUE NÃO RECONHECEM SUAS CRIAS

 

Segundo o dicionário: analogia é a relação de semelhança entre coisas ou fatos distintos. Para tanto, o que trataremos neste texto são as paridades entre as mulheres que não reconhecem, rejeitam, ou mesmo não amam as suas crias no reino animal e esta mesma situação no mundo humano, “civilizado”.


                                                                                  É O AMOR!

 

“O primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe: A sua expressão, o seu olhar, a sua voz.[...] É como se o bebe pensasse: Olho e sou visto, logo, existo!”

Winnicott

 

Para construção deste texto, pesquisei em alguns sites animais e quais seriam os motivos levam algumas mães a rejeitarem seus filhotes e, na pior das hipóteses, até devorá-los, como é o caso dos felinos. Sim, sim! Esse é também o caso dos fofos e domesticados gatinhos, que vivem conosco em nossas casas. Sobre os motivos, esses são vários, vamos então a alguns e, por falar em felinos, segundo o site peritoanimal.com.br as gatas são em geral muito boas mães, em especial quando têm sua primeira ninhada, ou seja, seus primeiros filhos; assim faz parte do seu instinto natural de felino saber cuidar de seus filhos sem auxílio de nós humanos. O problema é que, às vezes, a mãe se nega a cuidar de um deles, ou mesmo da ninhada completa.

Segundo aquele Portal, entre os motivos para tal feito materno, o principal se dá pelo fato de que "os animais têm seu comportamento regido por instintos”. Vamos então àqueles fatores: saúde da ninhada, saúde da mãe, capacidade para cuidar dos filhotes e, por fim, o estresse que, tão presente no mundo humano, também opera no Reino Animal, em especial no “reino materno”.

Ainda sobre o instinto dos animais, o mais importante é o instinto de sobrevivência. É com este faro instintivo que a mamãe gata consegue perceber que, se um de seus filhotes, ou mesmo toda a ninhada, nasceu com alguma infecção ou doença, ela se nega desperdiçar cuidados e leite a uma ninhada que “julga” não valer a pena. Já quando se trata de apenas um, ela o afasta dos outros, para evitar “contágio” à ninhada saudável. A princípio tal comportamento pode parecer cruel mas é assim que acontece no mundo animal, não por maldade, mas por instinto.


                 ESTRANHO NO NINHO

 

Outros fatores que cooperaram para rejeição materna ao filhote podem ser a saúde da mãe e, ainda, sua incapacidade para cuidar da ninhada. Como em toda regra há exceção, aqui também pode acontecer da mamãe gato não saber como cuidar de seus filhotes, como alimentá-los, limpá-los, etc., ao passo que optará por abandoná-lo.

Ao compararmos a mamãe gato com a mamãe humana, pode-se predizer algumas semelhanças e diferenças: a primeira delas é que o mundo no reino humano, seja para as mães ou qualquer outro ser, é regido pelas normas sociais; nele, os humanos conseguem aprender porque desde filhotes são treinados para trocar o instinto com que nascem pela socialização a que são submetidos em um processo contínuo de aprendizagem. Assim, as mamães humanas até podem agir por instinto e costuma-se dizer que agem mesmo; especialmente em situações que coloquem em risco a sobrevivência do filho.

Há de se falar também em algo popularmente conhecido como sexto sentido, uma espécie de hipersensibilidade que potencializa o comportamento de proteção materna. Mas, se no mundo animal há exceções, do outro lado também existe, pois, principalmente em épocas de terceirização da criação dos filhos, não é tão raro encontrar mulheres que não se identificam com a maternidade, ou mesmo mães que não reconhecem suas crias.


                                                                     TAL MÃE, TAL FILHO!

 

Sobre os motivos para a rejeição materna, eles podem ser os mais diversos possíveis e, por vezes, ter a ver com seu filho. Mas muitas vezes tem a ver com suas próprias questões que, entre outras, pode tratar-se de uma mulher com um histórico de vida marcado por rejeições e desamparos por parte de sua mãe, ou ainda uma infância marcada por desafetos, desamor e acentuada negligência; ou porque sua mãe também não sabia, ou não conseguia, cuidar por também ter sido abandonada, por ter perdido sua mãe ainda muito pequena e com isso não ter desenvolvido habilidades maternas para o exercício de tal função, assim não teria essa lembrança subjetiva, ou seja, essa memória dentro dela em sua própria mente.

 

“A renúncia progressiva dos instintos parece ser um dos fundamentos do desenvolvimento da civilização humana.”

Sigmund Freud

 

É DA NATUREZA!

 

Outra mãe um tanto desnaturada no mundo dos bichos é a foca-harpa, pois mesmo a aparência frágil de sua pequena cria não é o suficiente para convencer a mãe da necessidade do cuidado dela por mais de 12 dias após seu nascimento, já que, nesse intervalo, ela cuida bem do filho, mas em seguida volta-se para o mar e deixa seu bebê “abandonado", sendo que ele ainda não se encontra apto a buscar seu próprio alimento, o que o expõe a riscos de morte. Assim, quando consegue sobreviver, a foquinha adentra o mar, mas a probabilidade de reencontrar sua mãe é quase nula.

E sobre as mães foca harpa no mundo humano, podemos fazer tal analogia? Eu diria que sim! Pois cada vez mais cedo as mães estão entregando, ou mesmo delegando, o cuidado de seus filhos a outras mulheres, ou em casos extremos, à sua própria sorte. E que sorte é a de uma criança que já nasce nas ruas sob o denso cotidiano da dependência química, em uma época em que o uso de drogas é considerado um flagelo social e mesmo problema de saúde pública?!

Não é nada raro ver mulheres engravidando instintivamente sem nenhum preparo, cuidado, ou mesmo noção acerca de um filho ser uma das consequências do sexo desmedido, desprotegido ou coisas do tipo. É duro dizer, mas em casos como esse, a gravidez e o filho, mesmo após seu nascimento, passam a ser vistos e tratados pela mãe como incidente ou, pior ainda, um “acidente de trabalho”; por isso, podem ser abandonados, entregues à própria sorte ou à falta dela, em um percurso de vida muitas vezes trágico e, assim como os filhotes das focas, que certamente nunca mais verão as suas mães. É triste!

 

MINHA CARA!

 

“Quem não ama adoece!”

Sigmund Freud

 

Sobre tais mães não há muito o que falar, afinal de contas não é tudo que Freud explica, e a psicanálise também não. Pois questões sociais, políticas, culturais e de outras ordens estão envolvidas no comportamento e nas motivações para as atitudes das pessoas; nem tudo é subjetivo, nem tudo é pura e simplesmente psicológico, mas sim um conjunto multifatorial e temporal de fatos.

Por fim, eu gostaria de analisar e metaforizar acerca da mãe-cuco; diferentemente das demais aves, as fêmeas do cuco nem ao menos se dão ao trabalho de construir ninhos para depositar seus ovos; ao invés disso, elas põem suas crias em ninhos de outros pássaros e os abandonam para que mães de outras espécies cuidem, ou até mesmo alimentem, os seus pequenos.

Nesse sentido, site do Daily Mail retratou em Julho de 2010 a história de um engenheiro britânico que fotografou o momento em que uma "mãe adotiva" de uma espécie de pardal alimentava um filhote de cuco cinco vezes maior do que ela; de acordo com a observação do fotógrafo, ela havia criado o passarinho desde o ovo, e seguiu com a criação e cuidado mesmo após o seu crescimento. Essa mamãe pardal é o que o psicanalista winnicott chamaria de a "mãe suficientemente boa”, ou seja, aquela que reúne as habilidades, capacidades e afetos necessários e essenciais para reconhecer e criar seu filho como seu.


MÃE E FILHO

 

Para Winnicott, a mãe participa de uma verdadeira unidade com o seu filho e ajuda a formar sua mente, fazendo com que este processo seja bem feito.

“Ao lhe dar amor, fornece-lhe uma espécie de “energia vital”, que o faz progredir e amadurecer.” (Bleichmar e Bleichmar, 1992, pág. 246).

 

Winnicott acreditava que a mãe suficientemente boa é aquela que possibilita ao bebê a ilusão de que o mundo é criado por ele, concedendo-lhe, assim, a experiência da onipotência primária, base do fazer-criativo. E a percepção criativa da realidade é uma experiência do self, núcleo singular de cada indivíduo.

            Acerca das semelhanças entre a mãe-cuco e a mãe humana, eu diria que de todas as comparações na atualidade, essa é a que se sobressai: mães que dão à luz, mas que “não criam suas crias” por que delegam essa função para outras de outra espécie, quero dizer, outra função: professoras, cuidadoras, terapeutas, tias, avós, madrinhas, enfim... “umas parem e outras criam”.

Essa é a realidade crescente em nossa sociedade ocidental acerca do tema maternidade, nascimento e criação dos filhos. O interessante é que um dos motivos desse fenômeno é exatamente a busca frenética por mais e mais crescimento intelectual, com títulos e títulos, que colocam a mulher em um dilema: “ganhar o mundo e perder a sua casa e seus filhos”; em um movimento que muito se assemelha ao de alguns animais.



                                                         MÃE SUFICIENTEMENTE BOA!


 Sobre o que é certo ou que é errado, sobre o que vem primeiro: os sonhos e projetos profissionais ou os filhos, não entrarei nesse mérito, pois isso sim nos conduziria a uma discussão semelhante ao enigma: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

 

“Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: o que uma mulher quer?”

Sigmund Freud

 

Minha humilde pretensão é tão somente problematizar uma questão real e social, e não apontar culpados, certo ou errado. Mas com certeza afirmar que o problema das mães que não reconhecem suas crias é sério, tem muitas causas e muitos motivos e que, muitas vezes, é passível de tratamento, pois produz sofrimento tanto na mãe como no filho. Mas, especialmente, que ele existe e que faz parte não só do reino animal, como também do reino humano.

 

"O precursor do espelho é o rosto da mãe."

Winnicott

 

EU E ELA!

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