Desta vez eu mudei o tom da minha fala, ou melhor, da minha escrita,
optei por iniciar este novo texto com uma indagação ao invés de uma pergunta,
para realmente sinalizar a importância que a afirmação, clareza e
principalmente “a verdade” devem ocupar no conteúdo dos diálogos estabelecidos
entre aspais e filhos.
O olhar da sociedade para as crianças vem passando por inúmeras transformações,
percebe-se por exemplo que a criança de hoje em dia vive sob um certo apelo
para que aja, se vista, se comporte, se relacione e até mesmo usufrua do seu
tempo como um adulto, talvez por isso atualmente seja comum a compreensão social
da criança como sendo um mini adulto, o que de antemão já afirmo: não se
configura como algo saudável para o desenvolvimento de uma criança.
É consensual entre as ciências do comportamento que a criança é um ser
em pleno processo de formação e que seja do ponto de vista físico ou mental, “a
criança não nasce pronta”, mas sim "pronta para crescer e se desenvolver”.
Vale ressaltar aqui a importância de uma boa alimentação, padrão regular de sono,
cuidados básicos de higiene e segurança para que os pequeninos cresçam de forma
saudável. Mas e do ponto de vista da subjetividade, o que a criança precisa
para se desenvolver bem e assim contar com boa saúde mental?
Elementos como amor, cuidado afetivo, apoio e amparo das necessidades,
dos medos e desafios da criança, bem como o estabelecimento de uma rotina
regular de tempo de relacionamento com pais e demais familiares, momentos para brincar,
aprender, descansar e dormir...formam um conjunto de componentes essenciais ao
desenvolvimento mental infantil. Contudo gostaria de destacar algo que
considero de tamanha importância e relevância para formação da personalidade de
uma criança: o conteúdo das informações que lhe são transmitidas e nesta feita
já alertar aos pais quanto ao efeito nocivo da mentira para formação subjetiva
infantil.
A prática clínica de atendimento de crianças revela muitos sofrimentos
infantis e os motivos do adoecimento emocional são os mais diversos possíveis.
Para tanto em muitos casos é comum que os traumas, problemas ou conflitos
conjugais dos pais marquem o momento do
nascimento e/ou crescimento dos filhos, assim pode acontecer que parte dessas questões
parentais sejam “transmitidas às crianças sob a forma de mentiras ou então de
“meias verdades”, porém não vamos aqui nos aprofundar nos motivos que levam pai
e mãe a mentirem para seus filhos,
afinal de contas cada caso é um caso, cada família é uma família e cada criança
é uma criança, no entanto uma coisa é certa: toda criança deve e merece saber
a(s) verdade(s) dos fatos que marcam sua história e vida. Faço uma ressalva
para a importância de a criança saber a verdade acerca de quem são seus pais,
quem é de fato sua mãe e também o seu pai, e isso vale também para crianças que
foram adotadas, ou seja, a verdade deve prevalecer seja qual for o contexto que
envolve o nascimento e crescimento da criança.
É bem verdade que os pais não podem dá todas as respostas aos inúmeros
“porquês” de uma criança mas podem, ou melhor, devem repassar de forma compreensível
à idade do filho, as verdades diretamente relacionadas à sua história de vida. Especificamente
em relação aos pais, cabe um certo cuidado para que suas histórias e conflitos
afetivos e conjugais, não se misturem ao conteúdo afetivo da criança, e desta
forma evitarem o uso da criança como escudo, objeto de barganha ou troféu a ser
conquistado pelo pai ou pela mãe. Sugere-se assim aos pais que lancem uma certa
linha imaginária entre o que é história restrita dos pais enquanto homem e mulher
e o que tem a ver com a história de vida da criança enquanto pessoa.
Vale destacar que o terreno que forma a
subjetividade infantil é formado por conteúdos invisíveis (pensamentos, emoções,
imagens, lembranças, comportamentos, afetos), porém tais conteúdos são
concretos e predizem a qualidade da autoimagem e capacidade de relacionamentos interpessoais
da criança que diga-se de passagem um dia será um adulto. Outro ponto de
destaque é que uma mentira contada precisa de outras mentiras para ser
sustentada e “mantida”. As crianças contam com uma certa “hipersensibilidade
“que as faz “fisgar” pequenos e soltos elementos de verdade que poderão
ajudá-la a compor o complicado “quebra-cabeça” de sua história e é aí que
reside um grande perigo, pois a fértil imaginação que forma a cabecinha de uma criança pode levá-la a
criar versões recheadas de muita confusão e emoção que podem desencadear comportamentos
inadequado e/ou disfuncionais, como: birras,agressividade,intolerância a
frustração,inquietude,dificuldade de obedecer regras, normas e mesmo
orientações, na verdade todos esses comportamentos revelam que algo não vai bem
na cabecinha da criança.
Diante de toda essa exposição finalizo esse texto com um apelo aos adultos,
especialmente às mães e aos pais (biológicos ou não), para que não mintam aos
seus filhos, porque afinal de contas: saber a verdade sobre sua história é
direito da criança e revelar essa verdade é dever dos pais.
Andréia
Leite
Psicóloga
& Coach Infantil-familiar

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