De fato, as mudanças sociais ocorridas
nos últimos anos são gigantescas, profundas e complexas.
O homem é um “ser civilizado”, ou
seja, que vive em sociedade, e sua socialização se dá através do convívio entre
pessoas em espaços comuns a todos, esses ambientes podem ser “dentro e ou fora
de casa”, e tal convívio afeta tanto o homem como o seu meio.
A sociedade muda, as instituições
mudam, os modos de ser e estar do homem também mudam!
E
nesse contexto, refletiremos um pouco acerca da mudança nos modos de
relacionamentos familiares, em especial na forma de criar filhos, ou melhor, os
netos criados por suas avós.
Pode- se dizer, que há algumas
décadas, as crianças eram criadas e/ou educadas principalmente ou “exclusivamente”
por suas mães, e que tal função estava intrinsecamente relacionada ao papel
social da mulher, tais eram: mãe e esposa, talvez venha daí o termo “rainha do
lar”, pois ali estava seu reinado, na primazia do cuidado, imposição e
exposição dos atributos da mulher, ali também era aplicado todo o seu tempo e
talento, de fato, “sua casa era seu castelo e sua família era
seu reinado”.
A emancipação da mulher contribuiu
grandemente para equiparação dos direitos sociais, também trouxe mudanças na
dinâmicas familiar, digamos que a “rainha do lar” ampliou seus horizontes,
ganhou espaços e a maior parte deles” fora de casa”, com a aquisição e
construção de carreiras cada vez mais consolidadas. Bom, mas se as conquistas
foram fora do lar, essas mulher mãe/ esposa que antes estavam dentro e agora
passam para fora, quem então ficou em seu lugar de criadora dos seus filhos?
Eis aqui algumas respostas: as escolas,
que passaram a receber as crianças cada vez mais cedo, as creches, infantários,
hotelzinhos, as babás... mas também outras mulheres que após terem cumprindo seu”
papel social” pela consolidação de suas carreiras, agora “voltam-se” para casa
não para as suas, mas para a de seus filhos, também retornam para a maternidade,
mas não a de seus filhos” já criados” e sim dos seus netos.
O ato de criar os netos, envolve a mulher em uma complexa
relação com implicações também mentais, algo semelhante ao que acontece com a
gravidez precoce não planejada e muitas vezes não desejada da adolescente, pois
em ambos os casos não houve um preparo externo, e menos ainda interno, para a
vivência da “função de maternar”, podemos ter então como consequência, o choque
físico e emocional entre a vida que se está levando, e a vida que se precisará
levar por conta da chegada de uma criança, que vale dizer, requer muitas
adaptações.
Vale também ressaltar que, ao passo
que a mãe/adolescente de fato engravidou , ainda que de forma não planejada/desejada
a mãe/avó não teve essa vivência, aliás, geralmente “mas não como uma
regra”, a mulher se torna avó a partir dos 50,60 anos de idade, e nessa fase sua
força física, e por vezes a mental, já não são mais as mesmas.
Quantos são os motivos, que colocam
avós na condição de mães e criadoras de seus netos, estes são inúmeros, por
exemplo: a gravidez precoce da filha, mudança dos pais biológicos para outros
estados em busca de emprego, o divórcio dos filhos e/ou novo casamento, a falta
de condição financeira ou mesmo de maturidade para criar seus filhos e etc.
Como psicóloga infantil, já atendi
inúmeros casos de crianças criadas por suas avós, minha prática de mais de uma
década de atendimentos, permite-me dizer que, do ponto de vista mental não há
contra indicação psicológica nesse fenômeno, por outro lado, posso dizer que há
fatores que podem criar alguns contratempos ou mesmo conflitos, e o primeiro
reside no fato da avó passar a viver a crença de que ela é realmente a mãe biológica da criança, e pior ainda
quando ela tenta impor essa “inverdade” à criança, privando-a de conhecer e entender a sua própria história, sua origem,
quem é sua mãe, seu pai, porque motivo(s) não estão com ela, se seria porque
morreu, viajou, ou mesmo sumiu...
Enfim, como costumo escrever em meus
textos, “a subjetividade infantil é forjada sobre fatos reais” e por versões
criadas por seus cuidadores com fim de preservá-las da verdade, porém, tais
explicações, ainda que sejam faladas na intenção de protegê-los, só piora, agrava
ou mesmo cria situações que podem comprometer seu desenvolvimento mental.
O segundo ponto, é quando os pais até
estão próximos ou mesmo moram na mesma casa dos avós da criança, que passa a
ter “várias figuras de autoridade” e muitos responsáveis por sua educação e cuidados,
mas essa quantidade ao invés de ser boa, se torna negativa à formação da identidade,
/personalidade do pequeno, que não sabe de fato a quem copiar a quem pedir, a
quem recorrer e a quem obedecer. Ou seja, quando a dinâmica familiar é confusa e
marcada por estilos de criação divergentes entre pais e avós, que estão todos
ali no mesmo ambiente externo, mas negativamente contribuindo para uma
desorganização interna da criança, que no fundo não sabe “quem é quem”. Assim,
nesse caso, vale a regra “cada qual no seu quadrado”.
Nesses sentido conclui-se que, do
ponto de vista mental não há necessariamente problemas em avós criarem seus
netos, mas quando essa função é exercida com a criação de versões, que
substituem a verdade acerca da história da criança, e / ou quando há acentuada
divergência no estilo de criação entre pais e avós, aí sim, pode-se ter um
terreno propício à criação de problemas e conflitos que podem comprometer o
desenvolvimento e saúde mental da criança.
Andréia Leite
Psicóloga & Coach Infantil /Familiar


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